produzido no Distrito Federal, mais precisamente em Taguatinga, o cerrado é a terra percorrida pelos músicos em todo o álbum. Goiás e Corumbá estão no nome de duas músicas, mas há grafias e nuances deste bioma para além do que está dito. as composições evocam algo como o viajar por suas estradas em época de seca, entre o céu azul estridente e a água doce de seus rios. aqui, o berçário das águas do centro-oeste é insumo e colheita, onde se come não só a carne mas a ideia de um fruto. fala-se da natureza em sua concretude, mas o verbo faz perpetuar as veredas filosóficas todas.
cada torção de árvore nos
convida a subir montanhas
mas não há montanhas mas
não há montanhas mas não há
Canoa Carol, por exemplo, é uma música instrumental que move um cinema contemplativo por meio da escuta, convidando a uma certa perspicácia que a inatividade da apreciação exige, seja no chão batido dos dias ou na silenciosa noite cerratense. sua transição para os primeiros versos de Tereza, a música seguinte, é feita por meio de uma gravação de Iná Sol; trecho de ternura e graça que adorna a experiência. com letra de Ricardo Marujo, responsável pela poesia tropical fágica da canção, Tereza é uma primorosa composição conjunta de Juan Parada (vocal), Yuri Maracaípe (bateria), Donato (baixo) e Fernas (guitarra), músico que recentemente se juntou à banda para gravar o álbum e contribuir com o lapidar das faixas.
quanto ao processo de feitura de prática do acontecer das coisas, é evidente que os integrantes da vnuvem são, antes de músicos e compositores, assíduos ouvintes e apreciadores de música, esta que atravessa seus afetos há anos, de forma individual e coletiva. Melô do Corumbá, neste sentido, surgiu organicamente quase que numa jam, depois de um banho de rio no Corumbá. entre as influências muito consumidas pela banda, estão Mahmed, Bexiga 70, Chico Science e Boogarins.
já em relação ao nome do álbum, outra grande referência assume lugar, uma vez que ele foi extraído do belíssimo conto Sorôco, sua mãe, sua filha, do livro Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa. esta é uma das inúmeras prosas roseanas que delineia o tempo e a sina da existência em sua profundidade costumeira, como o sertão que é dentro da gente. na narrativa, há um contagioso canto, despropositado, que tece o vínculo entre as contradições e as belezas das pessoas de uma comunidade.
quanto ao grau de intencionalidade da escolha do nome, eu não poderia dizer, mas é como se tudo isso, de fato, confluísse. assim, prática do acontecer das coisas é o que se passa a despeito da vontade de domínio da mente humana; é o correr da vida que embrulha tudo e não deixa nunca de passar, ainda que pareça pairar. prática do acontecer das coisas pode ser, também, uma experiência sonora, rítmica e sensível, que cativa o mover-se e o deslocamento; nuvem impermanente ventando lenta no cerrado. mas veja, esta é uma dança que há de vingar sem imperativos da ação, na farta inatividade contemplativa; nosso álibi citadino. entre a primeira e a última música, do Alto do Goiás à omaj, a vista do som é toda a nossa recompensa.
Julia Iracy